Negócio de Família
Você pode, e deve, trabalhar
na empresa do seu pai.
Mas tome cuidado para não
esquecer da sua carreira
Por Mauro Silveira
O Brasil tem entre 6 e 8 milhões de empresas. A grande maioria delas, mais de 90%, é formada por organizações familiares. São empresas que vão da padaria ou da tinturaria da esquina até as grandes coorporações como o Pão de Açúcar e a Votorantim. São negócios que muitas vezes começaram com o avô, continuaram com o pai e espera-se que prosperem mais ainda com os filhos. Além de seus serviços e produtos, geram uma situação que pode ser confortável para o filho, que não precisa começar da estaca zero lutando por uma oportunidade no disputado mercado de trabalho, e é favorável para o pai, que acredita ter a garantia de que a empresa vai ser tocada por alguém de confiança. Esse, porém, é o cenário visto do lado de fora. Do lado de dentro, trabalhar no negócio da família não é fácil - em alguns casos chega até a ser mais complicado do que fazer carreira numa multinacional. E pode ser prejudicial à carreira da pessoa.
Na empresa do pai, por exemplo, o filho tende a ser visto como um protegido, uma pessoa que só está lá devido à carteira de identidade, e não graças ao talento. É certo que há filhos que não querem nada com nada. Quanto a esses, bem, não há o que fazer. Mas esta reportagem é para os que fazem parte de outro time: o dos herdeiros que sabem que só a competência leva a empresa para frente. Que só com muito trabalho, e sobretudo com trabalho bem feito, vão quebrar a resistência, ganhar o respeito dos funcionários e adquirir experiência para fazer a empresa se desenvolver. Que só com muito preparo vão fazer com que suas idéias sejam aceitas pelo pai (que muitas vezes, infelizmente, não os leva muito a sério).
Por mais tranqüila que seja uma família, a convivência em casa nunca é uma coisa muito fácil. No escritório, então, é pior ainda. "Haverá sempre um envolvimento afetivo, por mais profissional que seja o relacionamento", diz o consultor Marco Antonio Lovizzaro, diretor-presidente da Pró Recursos Humanos."Isso pode afetar os negócios." Como fundador da empresa, o pai acha geralmente que ninguém conhece o negócio melhor do que ele. Acredita que sabe exatamente como pensa e age cada uma dos clientes e fornecedores. Considera-se, em resumo, o dono da verdade. Numa situação dessas, o que é que o filho pode fazer para provar o seu valor? Como conduzir sua vida no escritório e colocar-se acima de qualquer suspeita? Como não deixar que o trabalho na empresa do pai não prejudique sua carreira? A resposta é simples: ele tem que esquecer que está entrando no negócio da família. Deve agir como se trabalhasse na mais competitiva das multinacionais. Dirigir sua carreira como se o negócio do pai fosse acabar de um dia para o outro e ele tivesse que concorrer a bons empregos no mercado.
Se é o seu caso, comece por jamais cair na esparrela de,depois de terminada a faculdade, parar os estudos. Cursos de pós-graduação ou MBAs no exterior valem ouro para as empresas, qualquer empresa, multinacional ou familiar. Não há mistério: uma coisa é sentar na cadeira de diretor da empresa do pai com 26 anos e muita vontade de dar certo. Outra coisa, diferente, é sentar-se na mesma cadeira, com a mesma idade, mas tendo uma MBA no currículo. Só com isso você já eliminou mais da metade das dúvidas que poderiam recair sobre sua competência.
Mas pais são geralmente ansiosos. Querem que o filho assuma logo, nem bem tenha terminado a faculdade. "Para que MBA, meu filho?", "Para que perder tempo com outras experiências?", dirá o pai."Porque é preciso", deve responder o filho. Se não der para estudar no exterior, no mínimo procure trabalhar em outras empresas. "É importante que a pessoa conviva com outra realidade, tenha chefes com estilos diferentes de liderança, faça amizade com vários profissionais, conheça outras formas de trabalho e de administrar um negócio", diz Lovizzaro. "Isso fará com que ela amadureça como pessoa e como profissional."
Os pais, muitas vezes, alçam o filho, logo de cara, à condição de diretor da empresa. Não percebem que fazendo isso podem estar criando um problema em vez de arrumar uma solução. Sem experiência - ou apenas com a experiência que o pai lhe passou - o herdeiro não se expõe ao mundo real, à concorrência feroz, à busca paranóica pela eficiência. Sem experiência, o cargo certamente estará acima da capacidade profissional do herdeiro. "Colocar um filho inexperiente numa posição de comando é um erro tão monumental quanto comum", afirma o consultor Renato Bernhoeft, especialista no assunto. O que fazer nesse caso? Tenha humildade para reconhecer que ainda não está pronto para o desafio. Se estivesse em outra empresa e não desse conta do recado, você seria demitido. Na empresa do pai, o preço da incapacidade muitas vezes é a falência.
Humildade, aliás, é a palavra-chave. Quantas vezes você já viu aquele ar de você-sabe-com-quem-está-falando estampado no rosto de um herdeiro? Esse é outro erro crucial: nunca se deve usar o fato de ser filho do dono para fazer uma opinião prevalecer. Ouvir os funcionários e aprender com eles é fundamental. Se o conceito de equipe está cada vez mais em alta nas outras empresas, por que não na sua? Assumir um posto de comando, não importa onde seja, sempre é uma missão que implica aproveitar o que já existia de melhor e combinar isso com seu estilo e potencial. Mas, numa empresa familiar, o pai faz geralmente questão de que o estilo do filho seja igual ao dele. O problema é quando este estilo está obsoleto ou caminhando para isso. "O modelo dono raramente serve para o sucessor", diz Lovizzaro.
É geralmente nesse ponto que os herdeiros talentosos se diferenciam dos herdeiros pangarés. Eles criam seu próprio estilo de liderar e administrar. Mudam aquilo que for preciso. Mas fazem isso aos poucos, conquistando seu espaço, aprovando idéias por concenso, jamais por imposição. É o caso da livreira Maristela Montesanti Calil Atallah, dona da livraria Calil Antiquária, um dos mais tradicionais sebos de São Paulo. Ela é um exemplo de como um herdeiro deve usar as forças do passado e do futuro para dirigir uma empresa familiar. Como se sabe, sebos são, por definição, um negócio antigo. Vendem livros usados, edições esgotadas, obras raras e mapas e gravuras antigos. Maristela herdou há seis anos a Livraria do pai, Líbano Calil, fundada em 1948. Em vez de fazer o trabalho da maneira que o pai sempre fez, esperando os livros chegarem até a loja, Maristela foi à luta. Visitou possíveis clientes, conheceu colecionadores, comprou bibliotecas inteiras para revendê-las depois.
Não demorou a perceber que, embora fosse mais, ainda era pouco. Foi então fazer um curso de biblioteconomia. "Meu pai gostava apenas de lidar com os livros e descuidava da parte administrativa", diz ela. "Eu tinha de estar preparada para gerenciar a livraria, cuidar das vendas, da administração, da procura de obras no mercado". Aos poucos, Maristela foi conhecendo os segredos do negócio. Mas como alavancá-lo e imprimir o seu estilo especial de administrar? Com muito trabalho e idéias. Nesses seis anos em que está à frente da empresa ela ampliou o acervo de livros de 100.000 para 200.000 obras, inaugurou um site na Internet (as vendas pela Web já representam 20% do total), começou a oferecer pequenos serviços de reparo e encadernação e está montando um catálogo de referência. Em resumo, agregou e continua agregando valor. "Acho que meu pai não concordaria com essa estratégia, mas ela é necessária". No futuro, ainda pretende fazer da Calil uma livraria exclusivamente virtual, com vendas pela Internet, abrindo excepcionalmente suas portas com hora marcada para clientes especiais e que gostam de garimpar coisas raras nas estantes.
A estratégia de Maristela pode ser aplicada a uma infinidade de outros negócios. Veja o caso da escola paulistana de caligrafia De Franco, fundada em 1915 e hoje funcionando em três endereços. Sim, é isso mesmo - escola de caligrafia. Mesmos nesses tempos de e-mail, há gente querendo ter letra bonita. Na De Franco, são 1.000 por ano. Além das aulas, a escola há 84 anos presta serviços como escrever convites de casamento, diplomas e homenagens, tudo manuscrito. Hoje, quem comanda a empresa é Antonio de Franco Neto, representante da terceira geração. Ele poderia ter deixado tudo como estava para ver como é que ficava, mas resolveu inovar sem perder o foco. "Sigo com amor os passos do meu avô, mas isso não significa que devo parar no tempo", diz Franco. Recentemente inaugurou um site na Internet. Com isso, a escola ficou mais conhecida em todo o país. Pouco a pouco a idéia é expandir o negócio para outros estados. Todos os dias chegam cerca de 50 e-mails pedindo informações. Quem responde é Antonio, de 15 anos, filho do Antonio, possivelmente o sucessor do pai. Se depender dele, a escola de caligrafia ainda vai sobreviver por muito tempo.
O segundo maior mérito de Maristela e De Franco foi criar uma nova frente naquilo que suas empresas, o sebo e a escola, tinham de melhor: o prestígio no mercado, consolidado ao longo dos anos. O maior e principal mérito foi não ter cometido o erro de confundir sucessão com herança, coisa muito comum a todos os herdeiros. Detalhe: se eles tivessem de ir hoje para o mercado procurar uma colocação, será que teriam grandes dificuldades? Provavelmente não, pois conhecem aquilo que fazem e souberam mostrar resultado. Ou seja, sua carreira está indo em frente. Por isso não se pode confundir sucessão com herança.
"Na sucessão, há uma dose de responsabilidade empresarial e social que não pode ser relegada", diz o consultor Renato Bernhoeft. "A herança, sim, é que pode ser desfrutada até de maneira irresponsável, pela falta de algum compromisso com sua origem ou futuro". Em seus 24 anos como consultor, Bernhoeft viu dezenas de empresas familiares serem destruídas por herdeiros que estavam mais preocupados com carros importados e viagens à Europa do que com problemas administrativos ou estratégias para sair da crise. Esse é um pecado mortal, que abala o pai, o filho e, por tabela, de maneira indireta, a aconomia do país inteiro.
As empresas familiares contribuem com mais de 50% do PIB brasileiro e da geração de empregos. Das 300 maiores organizações privadas em atividade no ano passado, 265 estão sob o controle de uma família. Apesar desses números expressivos, as empresas familiares do país não têm tido vida longa. "Das empresas que são bem sucedidas inicialmente sob a gestão de seu fundador, apenas 30% sobrevivem à mudança para a segunda geração", afirma Antonio Carlos Vidigal, autor do livro Viva a Empresa Familiar (Editora Rocco, 130 páginas, R$15,00). "Dessas, apenas metade sobreviverá à passagem da segunda para a terceira geração".
Além da inépcia administrativa ou do puro descaso com os negócios, um dos grandes motivos para tanta quebradeira são as famosas disputas internas de poder entre os sucessores. São discussões pesadas, que geralmente misturam dinheiro, poder e controle acionário com ressentimentos e mágoas da infância. Há chantagem emocional por todos os lados. Administrar isso é impossível. Resultado: muitas brigas familiares pela empresa acabam com todos chorando juntos. É dramático mas é compreensível. Se numa empresa privada às vezes não é fácil conviver com o sócio que você mesmo escolheu, o que dirá numa empresa familiar, na qual os sócios - irmãos, primos, cunhados - estão ali por uma fatalidade do destino?
Existe saída para isso? Sim, Mas ela implica civilidade, algo nem sempre possível em contendas dessa natureza. Nesse caso em que todos perdem é provável que um (ou dois ou três) dos primos ou irmãos tenha que disputar uma vaga no mercado para sobreviver. Se não estiver preparado para enfrentar de igual para igual aqueles que nunca tiveram a proteção da empresa do pai, corre o sério risco de passar a vida chorando sobre o tal do leite derramado.
Portanto, se você vai trabalhar no negócio do seu pai, tenha sempre em mente que a sua carreira não está garantida apenas pelo fato de o negócio ser do seu pai. A sua carreira depende de você, onde quer que esteja. Das suas atitudes, da sua força de vontade, da sua disciplina e da sua capacidade de fazer as coisas direito.